Quinta-feira, 21 de Março de 2013

Rumo






Queria deixar palavras bonitas com cores garridas e cheiro a alecrim
Queria estender a poesia na pele nua e branca e colher as rosas
Esquecidas pelo tempo nos lábios entreabertos em suspiro vago
Queria recriar o amor quente nas minhas mãos vazias e sentir
Enaltecendo o belo do olhar atordoado na madrugada adiantada
Queria agradecer ao mar a vida enrolada nas ondas
E as ondas enroladas na vida que é noite de lua cheia e fria no meu peito

Lembro-me de todas as pedras do meu caminho
E de todas as vezes que tinha medo e voei de olhos fechados para a palavra
E das noites que adormeci nos teus braços dentro do poema

Queria que as manhãs voltassem a cheirar ao azul do céu
E que todo os pássaros levassem nas asas a liberdade que lhes pertence
E que as crianças sorrissem os dias encantadas com o branco que somos
Queria que hoje se abrissem as portas e se embriagassem os homens
Num abraço de respeito onde a amizade fosse o néctar perfeito
Para que o rio continuasse a correr para o mar naturalmente

Lembro-me de todos os gritos que calei
E de todas as vezes que te tinha por perto de olhar apertado contra o verso
E dos dias em que nasci e voltei a nascer dentro de ti

Segunda-feira, 18 de Fevereiro de 2013

Perdoe-nos





Perdoe-nos


Não sei se consegue entrar no meu olhar e ver as mortes que sofri
Ou os pecados, as ofensas, a traição e as omissões que cometi
Não sei se veio para julgar ou apenas para sofrer e perdoar
Sei que o mar já não é azul mas vermelho de sangue
Pelas guerras incansáveis entre os Homens, aqueles que criastes
Como máquinas perfeitas mas tão imperfeitos nos sentimentos

As mãos em concha viradas ao céu choram as dores da vida
Enquanto os olhares não vão alem das paredes da casa que tem fome
A vaidade vai matando a terra que chora os seus frutos que não vingam
Porque o vento já não sopra mas polui o ar que respiramos
A raiva e o ódio correm de mãos dadas com a vingança
Enquanto a justiça dorme à noite com o suborno como vadia insaciável

Os rios correm angustiados à passagem pelas terras em poisio
Enquanto as folhas de outono já não caem com medo do esquecimento
As crianças já não correm de braços abertos aos beijos nos políticos
Estes agora dão-lhes fome, tiram o emprego aos pais e deixam morrer os velhos
E a igreja já nada pode fazer porque come à mesma mesa que eles
E os que não comem esgotam-se em planos loucos para dar agasalho aos pobres

Está tudo perdido porque a alegria morreu nas lágrimas e o suspiro sufocou
As pessoas já não se amam para sempre e correm por um tempo que não existe
E eu que queria tanto ver os meus filhos a verem os filhos sorrir
Como eu agora vejo os meus felizes na ignorância de um futuro
Peço-lhe que nos perdoe, que perdoe os Homens, o mundo, a vida
Que perdoe o sol, a lua e os ventos, que perdoe tudo, até os pensamentos


Sábado, 2 de Fevereiro de 2013

À espera do amor






Gostava de te trazer à beira de um sonho
Sorver-te o silêncio e espantar-te o medo
Agarrar-te as palavras pelas asas e voar

Gostava de sentir as gargalhadas nas mãos
E as marés inquietas no peito
Olhar para dentro de mim e afogar-me por inteiro

Rodopio na sombra de um suspiro e deixo escapar o verso
Amor entrelaçado e audaz nas madrugadas brancas
Que traça as linhas voluptuosas na pele do meu corpo

Agora o poema é capaz de ficar e dizer que sim à vida
Enquanto as mãos se abrem ao céu e esperam as estrelas

Recebo a voz nos braços e segredo-te baixinho que te espero


Domingo, 27 de Janeiro de 2013

No recanto da tarde





Hoje saí dos lábios da chuva e fiz-me rosa desfolhada ao vento
Prendeu-me a alma o cheiro da terra molhada que me humedeceu o olhar
É no recanto desta tarde cinzenta que me elevo aos sonhos
Carregando comigo esta vontade de me ausentar de tudo

Da boca nascem notas quase surdas que encantam o silêncio
Enquanto os braços aconchegam as horas que correm para a noite

O pensamento regressa do livro no desfolhar de cada página
E pára na sombra do domingo que se agiganta para uma nova semana

Uma tarde calma em contraste ao agreste da vida lá fora
E ao carrego da responsabilidade de viver dentro de nós

Da janela vejo o rio espalhar-se no mar e fazer-lhe tranças brancas
Que crescem e se desmancham em cada onda


A chuva vai beijando devagar o vento espalhando a serenidade nas marés





Segunda-feira, 14 de Janeiro de 2013

A medo




Murcham as pétalas das rosas pela ausência dos beijos
E chovem as lágrimas do céu pela ausência da esperança
Enquanto na terra nasce um lago de um intenso vermelho
Com peixes de asas brancas que nadam e voam ao sabor do sonho

Os ramos das árvores cantam a neve fofa e fria
E as mãos crescem ao vento pelo grito que bate contra a montanha
Enquanto a floresta acorda num verde raiado de sol que se espreguiça da morte
Com o rio a escorrer do leito para um (a) mar desconhecido

Os passos recusam o caminho pelo cansaço das promessas
O corpo cego pelo passado descobre um futuro vendado pelo medo

Enquanto o olhar brilhante e o sorriso inquieto avançam mais um dia


Quinta-feira, 10 de Janeiro de 2013

Livre






Livre como o sol
A alma
O sorriso e os abraços
O olhar
As minhas mãos
As palavras e a voz
O poema
Para ti
Na direção do sopro
Ao encontro da pele
Um beijo



Sábado, 5 de Janeiro de 2013

Beijo suave



Escorre-me pela face
o teu beijo.

Procura o ponto
de chegada.

Cega-me os lábios
de desejo

Aninhados na espera,
enfeitiçada.


Vanda Paz,
"Dedos Acesos", 2011, pag. 70

Quarta-feira, 2 de Janeiro de 2013

Pensamento




Borboleteio o pensamento enquanto sigo o azul do céu
Cruzo o olhar com o tempo e beberico nas ondas do teu mar
Que me envolve inquieto pela nova manhã
Serei eu no teu sorriso e tu no meu abraço
Encanto entrelaçado na foz de um beijo
Passo a passo, letra a letra, farei um poema nos teus lábios

(O segredo é guardar as lágrimas no peito)


Quarta-feira, 28 de Novembro de 2012

À beira do Outono






Gostava de lamber as tuas palavras
como quem lambe o fresco frutado nos dias rubros.
Amparar os sentimentos com os lábios
que escorrem das frases ditas e reeditas
suadas das mãos calejadas de gritos.
Enfartar-me de poesia,
descansar a cabeça no teu peito,
e diluir o tempo
que pesa nos olhares e adormece no horizonte.

Escreve os beijos que te dou
em palavras esmagadas por nós
onde nos tomamos
num trago…à beira do Outono.




Sábado, 17 de Novembro de 2012

Arrepio-me do verso que pressinto







Da vida respiro o vazio que me cresce das mãos

Lanço a noite à parede e absorvo os pedaços de luz das estrelas
Encontrei-me
Encontrei-me na luz mais ténue de um poema teu
Na encruzilhada da palavra com o sabor a beijo cru

Preciso de me rever num sorriso
De me estender no teu abraço e colher o aroma do momento
Onde o escorregar das mãos desnudam os sentidos
Onde as coxas são refúgios quentes das palavras mais rubras
E partir
De asas abertas a planar o tempo
De corpos selados onde o nada vale tudo
Onde a ânsia é rainha em cada maré
Onde a tua boca é nascente entre os meus seios
E a tua língua barco à deriva na minha pele branca

Arrepio-me do verso que pressinto
E deixo-me inquieta ao ritmo da música que nos faz crescer
Que nos faz amantes embriagados pelo vinho novo
Que fermentou das uvas maduras dos teus olhos



Segunda-feira, 12 de Novembro de 2012

o voo







não entendo
jamais compreenderei
o significado do voo
as rotas das flores
e das cores
no sentido dos olhos
que chamam

as mãos como pontes
e os nós dos dedos
como fontes
das palavras que escorrem
do céu em chamas
pelos lábios que se mordem
sós

o riso do abraço
ou o corpo dado em laço

não entendo
jamais compreenderei
o corpo suado de poema
ou as palavras rubras
esgotadas de amor

os pés
no caminho certo
da palavra
e o tom crescente
da silaba tónica
que é brava

os ouvidos que calam o segredo
num tempo que lambe o medo

jamais compreenderei
o voo
que se perdeu
no arrasar do tudo
que sou eu

e nas asas o voo
de quem não prometeu 




Sábado, 6 de Outubro de 2012

E da boca nasce o grito










Esgotam-se nas serras as mãos
Descem à planície as vontades
Enquanto os sorrisos se aninham
Fugindo das novas frivolidades
Trancam-se as portas do tempo
Esvoaçam as pétalas das rosas
Enquanto no chão se espalha o medo
Pela morte das palavras ansiosas
E da boca nasce o grito
Deixando o corpo como vela ao vento
Guardando as dores no peito aflito
Fermentando a memória e o pensamento

E na hora do brilho de quem escreve
Ergue-se a tristeza com sentido
Na palavra amarga que se perde
Num tempo que se acha perdido


Sexta-feira, 14 de Setembro de 2012

Outros tempos






No desembaraço das rimas aconchega-se o sol onde o calor era abraço sincero. Era o som do roçar das taças que se exaltava a festividade, deixando a alegria marcada de vermelho em forma de lábios no cristal. Era o som dos cantares nas tabernas que derramavam notas de cheiro a vinho maduro. Eram as brincadeiras das crianças no recreio da escola. Os operários na hora de almoço. Era o tudo que cantava a vida enquanto no campo se apanhava o sustento. Eram as famílias inteiras junto com as outras famílias e ainda quem viesse. Eram os caminhos dos animais férteis e das árvores, e dos rios e do mar. Era a cidade em poema, declamada por poetas. Era o fado, as toiradas e as sardinhas assadas. Era a Lezíria, os cavalos e as vinhas. Era o Douro a escorregar na garganta, puro. Eram tempos onde o relógio esperava a festa e deixava a hora da lua para mais tarde, enquanto se sentia alegria, enquanto se sentia o sol, até este adormecer.

Como vão os poetas cantar os dias de hoje?



Quarta-feira, 5 de Setembro de 2012

De volta






Só tu compreendes o arrepiar dos dedos
O engasgar das palavras que morrem nos lábios

Quando me disseste que esperavas por mim
No lado vazio da minha cama, não me enganaste
Senti o teu abraço quente, o teu cheiro, o teu silêncio
Os beijos suavizados em lábios entreabertos

Pensei que jamais seria capaz de continuar
De entrelaçar as frases e despertar o poema
Mas tu, trazes-me a serenidade que preciso
Libertas-me dos sonhos que matam
Deixando-me no meio da frase que me pede para ficar

Sabes poesia
De mãos dadas ainda seremos madrugada e lua cheia





Quinta-feira, 2 de Agosto de 2012

Porque a viagem começou







É no amachucar dos dias que lambo o futuro com ganas de viver. É no respirar cinzento que abraço o sorriso, entornando-o sobre mim. Porque a viagem começou, porque as pedras desfizeram-se, porque o céu já não chora, traduzo o tempo na distância da memória. Cruzo os passos com a música ancorando cada nota no meu peito, e danço. Porque este sonho é meu na madrugada que me foge entre os dedos, escrevo-o. Das palavras desenho o futuro que anseio deixando escorrer as letras sobre o sol, queimando-as de prazer. Sopro as papoilas e faço um rio de sangue que ainda dói, que ainda fere, e choro. Vou esquecer os caminhos que magoam, construir pontes para olhares de prata, sorrindo por cada manhã que encontrar. Talvez por saber perder encontro agora a maré cheia de mim. Talvez por saber entender, reservo agora a ultima frase para me encontrar. E deixo-me espalhada em tudo que me implora, e deixo-me inquieta em tudo que me anseia e volto a ser quem sou. Porque do nada venho, porque renasci em peito quente, amanha serei muito mais que eu, porque tudo o que me rodeia é vida.

Segunda-feira, 25 de Junho de 2012

Jamais deixarei de sonhar



quando
me respiras
os lábios
e partilhamos
os beijos

crescem asas
aos segredos
humedecem as mãos
de desejos


entrego o meu corpo
nos teus braços
como taça
de vinho generoso
para que sorvas
lentamente este amor

para que te envolvas
num embriagar saboroso



e se somos
apenas um sonho
que em breve
poderá acabar

perdoe-me
a vida comum

jamais                    
voltarei a acordar

jamais
deixarei de sonhar


porque eu sou vento
eu sou mar,
espaço do tempo
vontade de te amar



Sexta-feira, 22 de Junho de 2012

De braços abertos




De braços abertos
recebo o grito do sol
que chora
e sofre pelo amanhã que dói.
A chuva
esconde-lhe as lágrimas
e eleva o vento ao limite,
tocando o céu arrepiado.
O olhar
desagua no extenso areal
feito de corpo
ardente,
onde descansam todas as estrelas.



Segunda-feira, 18 de Junho de 2012

E o sonho sorri a cantar o Tejo



Veste-se de verde a Lezíria.

Suave o relinchar
A cada brisa, a cada passo
Voluptuoso o caminhar
De crina solta e selvagem
Monto o tempo e viajo a trote
Belas são as paisagens do passado
As imagens corridas da memória
(tão longe de serem esquecidas)

Achei-me na arena e lidei o touro
Carregada da vida dura
Cravei as farpas na dor e corri

Atordoei-me com os sons dos pássaros
Acordei de madrugada
Com a boca amarga das letras
E o corpo coberto de rosas
Que nasceram das tuas mãos
Com o pecado que fizemos

E o sonho sorri a cantar o Tejo.




Sexta-feira, 15 de Junho de 2012

Pétalas de sonhos



Sopro as pétalas dos sonhos
Nasce um rasto de cor purpura

Longe está o futuro que anseio

Da voz que se ergue ao vento
Escorrem pensamentos já maduros
Cujo sumo
Bebo na passagem do tempo

Ampla é a paisagem que me rodeia

Mostro as mãos ao mundo
Trazendo à luz as palavras mortas
Que tanto esperaram…
Pelo rasto de cor purpura
Transformando-se em cinzas

Crescem agora sorrisos sérios
Que entram na noite de mão dada

Sopro as pétalas dos sonhos
Que te beijam os lábios de madrugada




VP06/2012

Quarta-feira, 13 de Junho de 2012

Terça-feira, 5 de Junho de 2012

Tributo a José Craveirinha

No passado dia 2 de Junho um grupo de poetas juntaram-se para o lançamento do livro "Tributo a José Craveirinha" da editora Temas Originais, no qual eu também dei a minha singela contribuição.





Um excelente livro para ler.




AO MEU BELO PAI EX-EMIGRANTE


“E na minha rude e grata
sinceridade não esqueço
meu antigo português puro
que me geraste no ventre de uma tombasana”

                                   José Craveirinha

Entre a noite e o dia
Amadurece-me o pensamento
Em raiva
Pelo laivo de sangue branco
Que me corre nas veias
Em rio negro
De sangue moçambicano

Vanda Paz



Sexta-feira, 6 de Abril de 2012

Arrepiando o rubro da palavra



São as frases ditas

Que as paredes absorvem

Quando o pensamento

Se lhe encosta nas faces frias

Arrepiando o rubro da palavra

Que se reflecte

Na voluptuosidade do poema



No sangrar do verso

Rasga-se a intensão

Quando se fala do amor

Amachucando o assunto

Sem dignidade

Com a pressa de quem diz que ama

Sem vestir a solidão da saudade



(saudade é bom…

… como odeio poemas de amor!)



Varro os murmúrios

Lavo o chão dos suspiros peganhentos

(encardidos

pela intensidade do sentimento)

E entrego-me à vida

Escrevendo o caminho em folhas de mármore



Quinta-feira, 5 de Abril de 2012

Pela boca do vento frio



Não quero rasgar a voz

Ou ferir qualquer silêncio

Quero apenas

Esvaziar-me de sonhos

Engasgar-me com a realidade

E deixar-me morrer

Pela boca do vento frio

Que cristalizou

Cada rosa vermelha do meu jardim

Por certo...



Por certo

Sou só o branco

Que mancha o papel

O deserto

Da imensidão das letras

O oceano

Das frases curtas e vazias



Por certo

Sou só a lua sem luar

A estrela

Que deixou de brilhar

A faina das coisas chatas

E repetidas



Por certo

Sou o traço desalinhado

Num inquieto tracejado

Onde o tudo ou nada entendo

Quando das lágrimas se solta

A vida num remendo

Quinta-feira, 22 de Março de 2012

Terça-feira, 14 de Setembro de 2010

Zeca Afonso


Sabes Zeca

O olhar com que sonhavas o mundo
Ainda não brilha

A voz que deixaste nas nossas vidas
Já não ecoa

Dói-me o choro de uma mãe
Que desespera pelo abraço do filho
Perdido pela droga

Dói-me o silêncio daquela mulher
Que se esconde do olhar de um marido
Que a maltrata

Sabes ZECA, devias voltar…

Hoje, em tudo se encontra
Pedaços de injustiça que magoam
Pedaços de vida que amargam
Quantas cantigas, gritaste?
Quantos pedidos, fizeste?

Poemas estilhaçados que se perderam

Volta ZECA
Volta com o cantar de um infinito
Que mexe, que incomoda…
Pois já não há pão
Não há emprego
Não há razão

O cântico é de lamúria
A voz já não tem espaço para cair
O grito da revolta afundou-se
Em mar de desespero arregaçado

As ribeiras ainda choram
Os rios não voltaram a passar
Os olhos não secaram
Mas contigo,
Voltamos a cantar…

Domingo, 20 de Abril de 2008

Vazio da alma

Hoje, ides podar
a árvore dos meus sonhos.
Ireis queimar
os ramos novos de ilusões
e deitar as cinzas aos silêncios.

Irei em cada pedacinho…
…ao vento…

Ficarei assim, vazia, mais uma vez…